O canal de tevê por assinatura Telecine Premium exibe, no dia 24 de julho de 2010, sábado, às 22 horas, o longa “Jean Charles“, baseado na história do brasileiro Jean Charles de Menezes, que foi morto por engano em 2005, em Londres, suspeito de terrorismo.

O filme, que inicialmente havia sido encomendado pela rede estatal britânica BBC, foi cancelado por questões legais e divergências artísticas com Henrique Goldman, o diretor do longa. Na época, Goldman disse que gostaria de privilegiar o ponto de vista brasileiro da história, enquanto a rede estatal queria algo com a visão inglesa do caso.

Confira abaixo uma entrevista com Henrique Goldman para o portal “UOL” sobre o longa.

UOL Cinema – O que mais chamou a atenção no caso de Jean Charles, que fez com que você não desistisse do projeto quando a BBC resolveu deixá-lo de lado?

Henrique Goldman – O fato de a BBC tê-lo deixado de lado me motivou ainda mais, porque a porta se abriu para fazer o filme que eu queria. Não abandonei o projeto porque não podia ser abandonado. Era importante para mim, para o Brasil e para a Inglaterra. E também para o UK Film Council e a Ancine [Agência Nacional do Cinema], que financiaram o filme.

UOL Cinema – O filme aborda de alguma forma os erros dos policiais ingleses e o fato de ninguém ter sido punido até hoje?

Henrique Goldman – Sim. Apesar de não ter um enfoque na polícia, é um filme sobre o Jean Charles e seus primos, e não poderia deixar de apontar o dedo e acusar esses policiais, porque eles são desonestos. Mas a história central do filme é de como a prima dele, a Vivian [interpretada por Vanessa Giácomo], sofre com tudo que aconteceu; é a história de uma menina inocente que vira mulher, de uma pessoa se reencontrando depois de uma perda grande.

UOL Cinema – Você se identificou com o fato de Jean Charles tentar a vida em outro país, já que mora fora do Brasil há 27 anos?

Henrique Goldman – Esse foi o talvez o principal ponto de identificação minha com o Jean Charles e essa história. E não é uma coisa só minha, é um evento histórico mais recente o fato de que o Brasil deixou de ser um país feito por imigrantes para produzir emigrantes. E o Brasil não conhece esse “Brasil do exterior”; esse olhar dos brasileiros no exterior é uma coisa que não foi bem explorada.

UOL Cinema – Você trabalha mais como diretor de documentários. Por que optou por contar a história de Jean Charles em forma de ficção inspirada em fatos reais?

Henrique Goldman – A ficção nos possibilita contar uma história maior. No nosso filme, o Jean Charles e os primos dele exemplificam essa condição da “diáspora” brasileira, sobre esses brasileiros que vivem no exterior. E foi também um jeito de condensar e criar um impacto emocional maior. Um documentário sobre isso não me interessaria.

UOL Cinema – Como foram os contatos com a família de Jean Charles durante a elaboração do roteiro?

Henrique Goldman – Eles nos ajudaram muito. Sou muito grato pelo fato de confiarem em nós. Óbvio que essa situação os abalou muito, e eles ficaram feridos também pelo uso que a imprensa fez da imagem do Jean, em especial a inglesa, dando destaque a boatos levantados por policiais. Existia, com razão, certo receio da parte deles. Mas, passado esse momento inicial, nos ajudaram muito. Entrevistamos a família e também amigos. O ex-patrão e uma das primas de Jean até interpretam a si mesmos no filme.

UOL Cinema – Houve muitas adaptações na história de Jean Charles para que ela se encaixasse bem no roteiro?

Henrique Goldman: Claro, é uma obra abertamente de ficção, mas sempre fiel ao espírito do mundo que está retratando, que é o dos brasileiros no exterior. Foi baseado em horas de entrevista, depois de uma imersão total minha e do roteirista Marcelo Starobinas no mundo deles. Mas a ordem dos eventos não é necessariamente a mesma.

UOL Cinema – Como foi a participação do Sidney Magal?

Henrique Goldman – O que aconteceu de verdade foi que o Jean Charles consertou o “réchaud” de um restaurante brasileiro em Londres onde o Zeca Pagodinho iria almoçar. O dono do restaurante, em pânico, ligou para o Jean, que foi lá consertar e salvou o dia. Pensamos em fazer a cena com o Zeca Pagodinho, mas ele não tinha disponibilidade para viajar. Então pensamos em quem poderia ser um substituto à altura e que pudesse trazer uma coisa engraçada e divertida do Brasil. Por isso chegamos ao Magal. Em vez de salvar a feijoada, no filme ele salva o show do cantor.

Fonte: UOL

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